MEMORIAL ATUALIZADO EM: 12/09/2009, às 16h20min.
Elias Canuto Brandão - Possui graduação em Filosofia pelo Instituto Arquidiocesano Filosófico-Teológico "Paulo VI", de Londrina/PR (1982), curso não reconhecido; História pela Universidade Estadual de Maringá (1996), mestrado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000) e doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Araraquara/SP-2005). Docente no ensino superior. Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas e Gestão Educacional (GEPPGE), da Universidade Estadual de Maringá/PR (UEM), sobre a temática: "Educação em Direitos Humanos". Atuação profissional: História, Sociologia, Filosofia, Gestão e Políticas Educacionais, Educação e Organização Social do Trabalho Pedagógico, Educação em Direitos Humanos, Educação e Movimentos sociais, Educação de Jovens e Adultos... PARTICIPAÇÃO EM PROJETOS: Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário (PEART - Coord. Pedagógico - 1994/96); ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA - UEM - Coordenação e docente na Formação de monitores alfabetizadores - Roteiro/AL(1998); INCRA-UEM-PRONERA - Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Coord. Pedagógica - 1998/2000); PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE MARINGÁ: Organizador e coordenador do Orçamento Participativo (OP) no Município (2001/2003). ATIVIDADES EM EXECUÇÃO: Conselheiro suplente do Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (PROVITA-PR); Assessor de formação do Movimento Nacional de Direitos Humanos-Paraná (MNDH-PR); Coordenador do Coletivo de Estudos e Educação em Direitos Humanos (CEEDH-Maringá).
Meus pais, Pedro Alves Canuto e Elizabeth Brandão Canuto, casaram-se no dia 25 de abril de 1959, na cidade de Mata Grande, Estado de Alagoas e eu Elias Canuto Brandão, nasci em 09 de julho de 1960, no sítio Gato, aproximadamente três quilômetros de Mata Grande-AL, cidade onde fui batizado pelo padre Aloysio - muito falado por meus pais, tios e avôs. Devido a pobreza no nordeste brasileiro e por questões de sobrevivência da família, meus pais acompanharam meus avôs maternos e se mudaram com toda família para o Paraná, em 1965, quando eu tinha cinco anos. Meu registro de nascimento e de meu irmão José Nildo, foram tirados dias antes da mudança para o Paraná. A família ficou completa nos fins de 1967, após nascerem os demais irmãos, composta por Pedro Alves Canuto, Elizabeth Brandão Canuto, eu e meus irmãos José Nildo Brandão Canuto (1961), Paulo Brandão Canuto (1966) e Maria Inez Brandão Canuto (1967). Meu pai, antes de se casar chegou a morar e trabalhar por alguns anos na cidade de Santos/SP como cobrador de ônibus urbano e na construção civil.
Pouco me recordo de Alagoas. Lembro-me vagamente de acompanhar minha mãe na busca de água na cacimba distante da casa em que morávamos no sítio Gato e no sítio Pedra Miúda (de meu avô); lembro-me vagamente de acompanhar meu pai, tios ou avô na busca de aipim (mandioca), jerimum (abóbora) ou outros mantimentos na roça, por meio do carro de boi. Não me lembro de brincadeiras.
Recorda-me o momento em que quase fui atirado para fora da carroceria do pau-de-arara (caminhonete) que nos transportava do sítio Pedra Miúda para embarcarmos no ônibus, nas proximidades de Canapi/AL, em direção ao Paraná. Fui pego por uma das pernas, no ar (graças à rapidez de meu tio Paulo Alves Canuto, que reside em Paulo Afonso/BA e em Maceió/AL) após o veículo passar em velocidade sobre uma elevação (lombada) na estrada de terra entre as duas cidades. Deixamos para trás a cidade que não me lembro e, cuidando dela e de seus moradores, ficou minha tia Josefina Alves Canuto - a professora.
Durante a viagem para o Paraná, recorda-me ver os veículos aparentemente pequeninos que ultrapassavam o ônibus ou vinham de frente a ele durante os vários dias de viagem. A sensação que tinha é que eram veículos de brinquedos. Não me recordo das rodoviárias, das estradas de terra, nem do que fazíamos ou aprontávamos durante a viagem. Se brincávamos, se chorava, se apanhei...
Ao chegarmos no Paraná, fixamos residência no sítio de meu avô Argemiro Vieira Brandão e Maria Vieira Brandão (in-memória), no distrito de São Lourenço, município de Cianorte/PR, próximo ao Rio Ligeiro. Lá residimos até 1969, quando meus avôs venderam o sítio e se mudaram para o distrito de Cafezal, município de Iporã/PR, a partir de julho de 1992 emancipou-se com o nome de Cafezal do Sul/PR.
Com a venda do sítio em São Lourenço, meus pais se mudaram para Umuarama/PR. Minha mãe sempre trabalhou na roça e no lar. Guerreira e batalhadora. Meu pai, ao chegar em Umuarama, foi trabalhar de assalariado nas industrias de café, algodão e construção civil. Em Cafezal trabalhou de operário na Serraria e mais tarde retornou com a família para Umuarama onde continua residindo com a metade da família: a esposa Elizabeth e os filhos José Nildo (solteiro) e Paulo que casou-se com Matilde, tendo duas filhas: Gabriela e Thaís. Em Maringá residem os filhos Elias e Maria Inêz. Eu me casei com Maria Cecílio e Maria Inêz casou-se com Altair Bonini, tendo dois filhos: Felipe e Pedro.
Meus pais sempre residiram em casas de barro (taipa), lascas de coqueiro ou madeira. Nos sítios, em Alagoas eram de barro batido entrelaçado por cipós amarrados, com parte de lajota. Em São Paulo (Santos), a casa era de madeira e, no Paraná, no sítio de meu avô Argimiro, próximo a São Lourenço, a casa era de lascas de coqueiro, coberta de taboa (no linguajar popular: "tabinha"). Em Umuarama e Cafezal/PR), as casas eram de madeiras. Em Umuarama, nos fins dos anos 60, pagamos aluguel para tio José Brandão. Quando fomos para Cafezal do Sul, pagamos aluguel em uma casa de madeira até que uma moradia na colônia da Serraria Santa Jalmira fosse desocupada. Internamente, na Serraria, mudamos três vezes. Da pior à melhor casa: simples, sem pintura, sem forro, mas de assoalho de madeira plainada.
Os bancos e mesas eram feitas de madeira bruta, a exemplo do cedro ou peroba. As camas eram de lascas de madeiras brutas com lastros de paos sobre elas para receber os colchões enchidos de palha de banana, a exemplo do nordeste e, de palha de milho, caso do Paraná. Cama e colchão industrial somente foram compradas pela primeira vez no início dos anos de 1970, depois de começar a trabalhar na Serraria em Cafezal.
O fogão e as panelas do nordeste até os fins de 1960 em Umuarama, eram de barro. Após chegar na Serraria passou a ser o "fogão econômico", com panelas de alumínio. O chão das casas no nordeste e próximo a São Lourenço era de barro batido. Em Umuarama e Cafezal eram de assoalhos de madeira. Atualmente acompanhamos a modernização, colocamos piso. Para se ter idéia, o assoalho de madeira avisava a todos que estavam na casa que alguém estava se deslocando de um cômodo a outro ou indo ao mitório ou banheiro. O barulho era inevitável, sobretudo quando o assoalho carregava uma certa idade de uso.
O horário de dormirmos acompanhava o didado popular: "dormir com as galinhas". Como não havia energia, rádio, TV e qualquer outro meio de entretenimento, antes que escurecesse todos eram obrigados a se lavar enquanto enxergava-se as sujeiras e um ou outro tomava banho. Dependendo do dia ou situação climática o jantar pobrérrimo era servido à luz da lamparina, vela, lampião ou lua. Passado um tempo razoavelmente curto e sem nada a fazer na escuridão, vinha a ordem do pais aos filhos: dormirem. Assim foi em Alagoas e em São Lourenço. Os horários para dormir somente começaram a mudar após chegarmos em Umuarama pela primeira vez com a novidade jamais vista e vivida: a energia elétrica, o chuveiro de balde, o fogão econômico, os mitórios com acento de madeira para sentar-se aconchegadamente e realizar as necessidades fisiológicas.
A comunicação naquela época dava-se por carta e demorava de 15 dias a seis meses. Quando era muito urgente, utilizava-se o telegrama (meio de comunicação para quem tinha melhores condições econômicas).
O meio de transporte era a pé, a cavalo, jegue (jumento) ou, esporadicamente, em carro de boi. Por exemplo, meu pai se deslocou com meu avô Argimiro, do sítio no Estado de Alagoas, a cavalos para Mariana, distrito de Inajá-PE, para realizarem feiras e registrarem o nascimento meu e de Zé Nildo. Praticamente não viajavam a lugares distantes, o cavalo era o meio de transporte, a exemplo do sítio em Mata Grande para Inhapi ou Canapi. Para se ter uma idéia, os casamentos eram feitos a cavalos pelos noivos, familiares, padrinhos e convidadose. Dizem meus pais que era divertido e normal.
No Paraná, o meio de transporte foi a bicicleta e, esporadicamente o ônibus. Carrinho de burro foi um meio que utilizei após chegarmos a Cafezal, por ser utilizado pelo meu avô no trabalho e passeios pelas estradas rurais, à missa, à cidade, às casas dos tios ou conhecidos. A partir de São Lourenço, o ônibus foi o meio de transporte oficial que até hoje meus pais utilizam.
As roupas mais comuns usadas nos sítios em Alagoas pelas crianças e adolescentes eram camisolões de pano, alguns de saco - os mais baratos do mercado. Quando chegavam desconhecidos, dizem que corríamos para nos esconder envergonhados por estarmos usando camisolões. Para sair de casa, os pais vestiam nos "menino homi" calças ou shorts com "suspensoró" e, nas "menina muié", vestidos ou saias.
Os adultos compravam tecidos - os mais baratos do mercado - para fazerem cirola, calças, calção, saias e vestidos (chita, tricolina, cambraia, voltamundo, mesca e, para passear, comprava-se caqui, gabardina, brim, lim...) e pagavam as costureiras para o acabamento.
As brincadeiras se davam nos próprios sítios, a exemplo de esconde-esconde, corre-corre, pega-pega, roda, passar qualquer coisa entre as mãos. As crianças brincavam algumas vezes nos locais onde se fazia novenas nos sítios ou, a exemplo de Mata Grande, nos meses de dezembro nas festas de novena (nove dias seguidos).
A maioria das pessoas estudava em casa por quem tinha algum conhecimento. Quem sabia ensinava o outro e algumas pessoas ganhavam uns trocados para ensinar. Minha mãe, por exemplo, aprendeu a escrever algumas palavras para escrever cartas para meu pai - o "namorado" - que estava trabalhando em Santos. Diz ela que o interesse em aprender a escrever o básico deu-se para não depender de outras pessoas para escrever por ela. Segundo ela, a primeira carta, por exemplo, foi escrita pela sua prima, em seu nome e, antes de ser colocada no correio por seu pai, a abriu, leu e aprovou o que estava escrito. Meu pai, seus irmãos e vizinhos tiveram melhor acesso à educação. Os pais providenciaram uma professora de Mata Grande, funcionária da prefeitura, que ficava semanalmente pousando na casa de meu avô - pai de meu pai - para ensinar os filhos e os vizinhos. Foi assim que meu pai aprendeu a ler e escrever, sem no entanto, terem comprovantes de que estudaram.
O banho era esporádico ou quando ia à missa, cidade ou feira. Diariamente lavava-se o rosto, as mãos e os pés. Banheiro não existia. No nordeste e quando chegamos no Paraná, o mato foi o espaço real/oficial das necessidades fisiológicas. Conhecemos mitórios quando chegamos no Paraná, após 1965. Banheiro na residência com caixa de descarga é coisa contemporânea, a partir dos anos de 1980. Higiene no Nordeste e por vários anos no Paraná, praticamente não existia. Após as necessidade fisiológicas, limpava-se com o que se encontrava na frente: sabugo de milho, folha de mato, mais para a frente utilizava-se papel, papelão, jornal, revista... Papel higiênico era coisa de rico e quando começamos a comprar, compra-se o mais barato, aquele que arranhava ao se limpar. Diga-se o mesmo do chuveiro que substituiu a bacia com caneca e o balde de ralo. O acesso era restrito, lento e dava-se aos mais simples e baratos. Não era diferente do acesso às caixas de descarga às patentes. Foi uma evolução que até hoje - nas casas dos pais - ainda são precárias, não diferenciando-se de milhões de residências Brasil e mundo afora.
A água no nordeste era de mina ou cacimba e após recolhida em lata ou balde era armazenada em pote de barro. Quando chegamos no Paraná, a água era de mina. Água de poço foi uma experiência de Cafezal e em Umuarama a água já era manipulada pelo Estado (Sanepar).
Comecei a estudar aos sete anos (1967) e, quando não estava na escola, ajudava meus pais nas tarefas caseiras e na lavoura de arroz, milho, feijão, mamona, algodão, amendoim, gergilim e fumo no sítio de meu avô, em São Lourenço e, posteriormente, em Cafezal.
Quando mudamos para Umuarama, em 1969, enquanto meu pai trabalhava no setor industrial (algodão), nas indústrias Fujiwara, Braswei, Matarazzo e Estevam (em algumas delas ele não teve o registro em carteira), eu vendia picolé - sorvete - e engraxava sapatos pelas ruas e avenidas que eram de terra/arenito. No mesmo ano, meu pai foi chamado a trabalhar de operário na Serraria Santa Jalmira, em Cafezal, recebendo o registro em Carteira Profissional, no dia 02 de janeiro de 1970. Eu e Zé Nildo ficamos no fim de 1969, em Umuarama, na residência do tio Manoel Alves Brandão (in-memória) concluindo o ano letivo.
Desde que mudamos para Cafezal (1969), comecei a trabalhar no sítio de meu avô. Após os doze anos de idade, além de trabalhar com meu avô e tios, também tocava um pedaço de terra, onde plantei feijão, mamona e amendoim. Após meus 12 anos de idade também trabalhava de bóia-fria nos sítios na redondeza de Cafezal (colheita de algodão, amendoim, feijão, milho, mamona, capinando...). O trabalho na roça de meu avô e de bóia-fria deu-se até 1974, quando eu tinha 14 anos de idade. Naquele ano comecei a trabalhar de operário na Serraria Santa Jalmira (amarrando sarrafos), afastando-me definitivamente do trabalho no campo - com raras excessões nas férias do Seminário -, quando por algumas vezes colhi café para ajudar a família e me sustentar nos estudos de filosofia e teologia.
Minha personalidade foi constituida em dois ambientes específicos: no sítio do meu avô materno e na Serraria Santa Jalmira, em Cafezal, entre 1965 e 1978. Neste período fui sorveteiro, engraxate, trabalhador rural, bóia-fria, diarista, empleiteiro, operário, bodegueiro e escriturário, além de participar do coral da Igreja Católica em Cafezal.
Quando criança e adolescente brinquei pouco e as brincadeiras foram casadas com o trabalho que atualmente - de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente - são proibidos. Comecei a trabalhar muito cedo: no sítio após os 9 anos e, na Serraria aos 13, amarrando sarrafos, sem carteira assinada e, como diversão, jogava lenha na caldeira da Serraria (a caldeira era um forno enorme que, ativado por fogo a lenha ou pó de serra ou de madeira, fazia o conjunto dos maquinários funcionarem: máquinas, serras, eletricidade...).
Nos inícios da década de 1970, estudávamos no Colégio Estadual de Cafezal e o prefeito de Iporã resolveu trocar o diretor Alaerte por outro de sua confiança política. Houve uma revolta generalizada dos estudantes com recusa em estudar caso o prefeito não recuasse da decisão da troca do diretor. Era período militar e não tínhamos consciência política do que acontecia no Brasil e os professores não nos ensinavam a respeito. O que não aceitávamos era a troca de um diretor que todos queriam na direção. A manifestação se expandiu pelas ruas de Cafezal e várias viaturas da Polícia Militar de Iporã e Umuarama foram deslocadas para acompanhar as manifestações dos estudantes e se necessário intervir. Inocentemente achávamos o máximo, sobretudo quando passávamos ao lado dos soldados de cara fechada - aparentemente revoltados por terem que se deslocar em estrada de chão para acompanhar uma manifestação estudantil. Vigorava o AI-5, mas nenhum incidente ou acidente ocorreu. Ao final do terceiro dia de paralisação, chegou a informação de que o diretor teria continuidade na função. No quarto dia, após confirmado no cargo, retornamos às aulas, vigiados por um efetivo da PM.
Lembro do período estudantil que tínhamos que formar fila para adentrar as salas e cantar o hino nacional, hino à bendeira, hino dos 150 anos dos centenário da independência e tantos outros impostos de cima para baixo. Nós alunos nem sabíamos por que cantava os hinos. Simplesmente obedecíamos as ordens e cantavamos o que nos ensinassem ou "solicitassem". Se havia questionamentos por parte dos professores, não faziam à nossa frente. Anos mais tarde fui entender o motivo da disciplina, do silêncio, do militarismo.
Aos 14 anos (1974) fui trabalhar por três meses em um comércio - venda, budega, bar - de meu tio Hilário Ramos da Silva (atualmente residente em Machadinho do Oeste/RO). A budega estava situada no entroncamento próximo da estrada boiadeira, na região entre os distritos de São Lourenço e Nova Brasília, ambos pertencentes a Cianorte/PR. A estrada era denominada boiadeira devido a grande concentração pecuária que transitava entre o Noroeste do Paraná e o Sul do Mato Grosso do Sul, desde Dourados/MS, passando por Icaraíma, Cruzeiro do Oeste e Campo Mourão/PR, em direção aos campos gerais - Ponta Grossa e Curitiba/PR. Nos três meses em que trabalhei na venda de meu tio Hilário, além do trabalho no bar, saia pelos sítios da região - em bicicleta - comprando e vendendo frangos para fazer um rendimento extra e conhecer as estradas da região.
Foram apenas três meses no comércio de meu tio, que me marcou até hoje. Nem bem havia me acostumado longe dos pais, fui chamado pela gerência da Secrraria Santa Jalmira de Cafezal, para trabalhar no Escritório da empresa em que meu pai trabalhava. Assim, a partir de 01 de abril de 1975, ainda adolescente, aos 14 anos e 08 meses (caracterizando trabalho infantil), passei a trabalhar de auxiliar de Escritório, recebendo meu primeiro salário e registro em Carteira Profissional. No escritório permaneci entre 01/04/1975 a 21/01/1978.
Permanecemos residindo na colônica da Serraria até o início de 1978, pois meu pai e dezenas de outros operários haviam sido dispensados (foram mandados embora, no ditado popular: a firma passou o facão) no final do ano de 1977, período de falência daquela e de tantas outras serrarias no Paraná.
Retornamos para Umuarama e fui trabalhar no Escritório Mercúrio, Contabilidade, Advocacia e Representações S/C, como auxiliar de Departamento Fiscal (09/02/1978 a 10/02/1979), quando pedi demissão do emprego para ingressar no Seminário Diocesano de Umuarama, o qual permaneci seminarista até 1984 quando fui mandado embora pelo bispo - voltarei ao assunto à frente.
No Escritório Mercúrio, conheci o contador José Jacinto que, observando nossa situação sócio-econômica, propôs a compra conjunta de um terreno para que pudéssemos construir nossa própria moradia e fugir do aluguel. Construímos inicialmente três peças de madeira na metade do terreno que nos pertencia, isto foi no início de 1979. Anos depois, José Jacinto propôs que comprássemos a preço de custo e parcelado a outra parte do terreno que a ele pertencia. Assim fizemos. Foi assim que meus pais adquiriram o único terreno que até hoje possuem e aumentaram a casa de madeira que existe até então.
Em 1979 adentrei o Seminário Diocesano de Umuarama e terminei o Ensino Médio. Como era um dos poucos seminaristas que dirigia, tornei-me motorista do bispo de Umuarama, dom José Maria Maiomone, realizando várias viagens pelas paróquias da Diocese transportando o bispo em suas viagens, inclusive a Maringá e Londrina. No início de 1980 fui cursar filosofia e teologia no Seminário Arquidiocesano Paulo VI, em Londrina/PR. As leituras dos livros “proibidos” no Seminário Arquidiocesano pelo Reitor da Instituição e pelo Arcebispo de Londrina, nos possibilitaram questionamentos das regras estabelecidas e proibidas na época.
Entre 1980 e 1982 estudamos filosofia. O curso não era reconhecido e até hoje não o reconheci. Alguns colegas ex-seminaristas reconheceram à parte, alguns em Lorena/SP e outros em Toledo/PR. Optei por cursar história na UEM (Universidade Estadual de Maringá/PR), entre 1993 e 1996.
No final de 1983, após concluirmos o primeiro ano de teologia, vários colegas foram suspensos por um ano dos estudos de teologia, entre eles eu (à exceção de um seminarista, os demais suspensos eram seminaristas da Diocese de Umuarama e Arquidiocese de Londrina). A suspensão foi resultado dos questionamentos que fazíamos das atitudes conservadoras da Igreja e em defesa da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) em voga no período. Suspenso, fui designado pelo bispo a trabalhar na Paróquia Perpétuo Socorro, em Umuarama e, um ano depois, final de 1984, fui dispensado - no linguajar popular: fui mandado embora - por dom Maimone, justificando que eu era por demais questionador da Igreja, das decisões do bispo e do que faziam os padres. Segundo ele, os questionamentos colocava em risco a formação dos seminaristas da Diocese, o que não era bom para a Diocese. Afirmou-me que eu serviria para a política, não para a igreja, para ser padre.
Voltando um pouco na história, alguns fatos foram marcantes ao analisá-la décadas depois: Não somente eu, como também a maioria das pessoas que adentram um Seminário, o adentra utopicamente. Encanta-se e aliena-se político, cultural e socialmente. Tudo passa a girar em torno do belo, diferente, religioso, utópico. É oração, canto, música, estudo, passeio, retiro, encontros religiosos, missas, atividades lúdicas... O seminarista é bajulado e endeusado pelos representantes da igreja e pelos fiéis. Neste início de século pode estar mudando, mas naquele período ainda era marcante.
Geralmente, os seminaristas adentram um Seminário ainda adolescente e sem personalidade formada. Os padres, bispos e formadores (professores) os lapidam à imagem e semelhança dos interesses da igreja. As leituras e estudos são direcionados. As celebrações internas são milimetricamente preparadas. Todos se envolvem para que os rituais saiam como reza o figurino: túnicas, cantos, palavras, tonalidade da voz, posição do corpo, gestos, leituras, hinos, comentários, procissão...
Somente o tempo pode possibilitar alguns seminaristas terem consciência crítica-religiosa e social, enxergando além da história da Igreja. Tal consciência ultrapassa os trabalhos pastorais desenvolvidos nas comunidades. Está acompanhado de leituras de livros, revistas e jornais não recomendados, além de conversas com colegas de seminário, envolvimento social junto a comunidades politicamente avançadas e de contrastes sociais conturbados. Somente ler, estudar e rezar não conscientiza. É mais fácil ficar alienado.
Observando o passado que vivi, se uma pesquisa fosse desenvolvida sobre a formação de um seminarista, penso que seria observado na maioria deles apenas o desenvolvimento da consciência religiosa. Talvez este seja o fato de a maioria dos padres não fazer outra coisa a não ser rezar missa e obedecer seus superiores, pouco contribuindo com o desenvolvimento da consciência crítica, social e cultural do povo que procura o representante da Igreja em busca conselhos sobre as dificuldades da vida, medo e incertezas e continua decepcionado. Vai ao templo - à missa -, reza e reza e, volta para casa tão vazio quanto foi.
Tais questionamento começamos a realizar a partir de 1981 e foi fruto de leituras não orientadas e debates da situação social, política e econômica do país e da Igreja entre os colegas nos intervalos de almoço, jantar e aulas, resultando em questionamentos sobre a prática diária, proibições e contradições - teoria e prática da Igreja e seus representantes -, custando-me a cabeça, ou seja, suspenso por um ano e, posteriormente dispensado, no final de 1984.
Alguns ingredientes contribuiram para o desenvolvimento de minha consciência: primeiro, a reabertura política em andamento desde 1979 (ano que adentrei o Seminário), resultando no fim do bipartidarismo (ARENA e MDB), que deram lugar a outras agremiações: PMDB, PDS, PT, PTB, PDT, e PP; segundo, a organização da Teologia da Libertação; terceiro, os trabalhos da CPO e CPT que se estruturava e fui conhecendo aos poucos, identificando-me com eles e participando aos poucos dos debates e, posteriormente da equipe da CPT, a partir de 1985.
Em termos políticos, recordo como se hoje, que nós seminaristas estávamos eufóricos para votar em 1982. Nunca havíamos votado. Era a primeira vez, mais ainda por vivermos sob o regime militar. Um candidato a governo do Paraná (José Richa) foi nos visitar no Seminário e pedir voto. O cidadão parecia próximo. Conversou com todos e ficou um pouco no meio dos padres e seminaristas por um bom tempo. Ficamos encantados com aquele senhor que aparentemente iria resolver o problema de todos no Estado. Politicamente estávamos atrasados. Mas foi uma aula de política. Nunca havíamos tido aquilo antes. Aquele fato, mais os noticiários sutis na TV e rádio sobre as eleições para governador, prefeito, vereador, deputado estadual e federal animava a todos para se deslocarem a suas cidades de origem e votar. Assim foi comigo e alguns colegas de Umuarama. Eu consegui com um candidato a vereador de Umuarama (não me recordo o nome) que custeasse a viagem. Na maior inocência, troquei o voto pela viagem e passeio na casa dos pais. Anos depois - já fora do Seminário - enriquecido por outras leituras e debates é que percebi que aquele comportamento foi "venda de voto".
Outros momentos marcantes em fins de 1983 e em 1984 (período em que estive suspenso dos estudos teológicos, trabalhando na Paróquia Perpétuo Socorro, em Umuarama, sob os olhares do padre José Dantas) foi ter contribuindo com a mobilização do povo em busca das "diretas-já". No entanto, duas grandes decepções me marcaram naquele ano. A primeira, foi o golpe do governo militar - representado pelo general e presidente João Figueiredo - em manobrar o Congresso Nacional derrubando a esperança do povo em elegermos o primeiro presidente da República pelo voto direto, restando-nos a alternativa que deputados e senadores elegessem alguém que identificado com os anseios do povo brasileiro. O segundo foi questionar ações da Igreja de Umuarama e em consequência, acrescentado pelo envolvimento com a CPT, ter sido mandado embora pelo bispo no final daquele mesmo ano (1984).
Enquanto estive seminarista, desenvolvi "atividades pastorais" nas paróquias de Ivaté, Icaraíma, Japurá, Guaravera, Ibiaci e Bela Vista do Paraíso, todas no Paraná, além de Euclides da Cunha/SP - Diocese de Presidente Prudente/SP, na Páscoa de 1982.
Ao ser mandado embora, em fins de 1984, mesmo com dúvidas se continuaria ou não os estudos teológicos, iniciei contatos com outras dioceses para me aceitarem. Visitei o bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, dom Cláudio Humes e o bispo auxiliar de São Bernardo do Campo, dom Angélico Sândalo. Após conhecê-los, acertei com dom Angélico que seria incorporado como seminarista naquela Diocese. Enquanto negociávamos, alguns padres de Londrina interferiram na minha ida para São Paulo e me convenceram em permanecer no Paraná - ao menos naquele ano (1985) - assessorando as pastorais sociais nos Cinco Conjuntos, em Londrina. Fui então residir na casa dos padres Xaverianos. Três meses depois, fui convidado a assessorar os trabalhos da Comissão Pastoral da Terra do Paraná (CPT/PR) na região de Londrina e fui residir na casa paroquial de Irerê/PR, distrito de Londrina, momento em que fui convidado para coordenar a CPT na região de Maringá/PR e, desisti em definitivo de continuar os estudos teológicos.
Fixei residência em Maringá em 1º de agosto de 1985. Inicialmente residi por seis meses na casa paroquial da Paróquia São Francisco de Assis, no Jardim Alvorada, com os padres Júlio Antônio da Silva (atualmente monsenhor) e Lourenço Gauci (atualmente em Santo André/SP). A fixação de residência em Maringá foi tumultuada, pois o arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, informado de que a CPT estaria fixando um agente de pastoral na região, com residência em Maringá, queria saber quem era o agente e que o mesmo somente se estabelecesse na região sob seu consentimento. Frente aos questionamentos do arcebispo, vários padres entraram na negociação e somente após o bispo de Umuarama escrever uma carta me apresentando foi que o arcebispo de Maringá “consentiu” que este se estabelecesse na cidade (como se para minha presença ou de qualquer outro agende da CPT fosse necessário o consentimento do arcebispo). Destacamos que quando o arcebispo “consentiu” minha presença na região eu já residia em Maringá (sem que o arcebispo soubesse) e acompanhava algumas situações de conflito no campo. Após saber que eu já residia em Maringá e mais ainda, em uma casa paroquial, o arcebispo teve discussões com os padres que me acolheram. Residi na casa paroquial por aproximadamente seis meses e, devido a questionamentos dos paroquianos sobre a minha presença, fui residir na casa da família do Abílio e Denise. Permaneci na CPT de 1985 a 1990, coordenando os trabalhos na região e contribuindo na coordenação e conselho da CPT no Estado e, durante todo o período o relacionamento com o arcebispo nunca foi amigável, mesmo participando de várias atividades conjuntas, a exemplo da comissão pró-constituinte.
A partir de 1985, parte da CPT, além dos trabalhos de organização e acompanhamento de sindicatos, movimentos sociais no campo, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em organização, investimos na formação da consciência dos trabalhadores e acompanhamos silenciosamente a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney, em 1985, torcendo para que a próxima eleição fosse direta.
Na CPT, assessoramos a organização e formação do MST; a formação e organização de oposições sindicais no campo; fundações de sindicatos e pastorais rurais em várias Dioceses; cursos de formação política às lideranças populares e sindicais no campo e na cidade; acompanhamos e assessoramos a greve dos canavieiros da Usina Santa Terezinha, em Iguatemi, distrito de Maringá, em julho de 1988, entre outras.
A greve dos canavieiros fez acirrar as relações do agente da CPT em Maringá e o arcebispo que não queria que os canavieiros fossem apoiados, chegando a chamar o agente da CPT de agitador e que estava colocando seus padres a se perder. Num primeiro momento o arcebispo ficou do lado dos usineiros (nossa avaliação foi de que o arcebispo ficou do lado dos usineiros por ter sido visitado primeiro por eles e pelo presidente do Sindicato patronal que o cobravam em impedir que a CPT - Elias Brandão - acompanhasse a greve).
Após pressões dos padres - inclusive dos mais conservadores - e de receber uma carta dos canavieiros onde descrevia detalhadamente a situação em que viviam, eram transportados, trabalhavam e se alimentavam comendo alimentação azeda devido o calor e debaixo de sol e chuva, o arcebispo cedeu sob a condição de mediar a greve. Deslocou-se para frente da Usina para conversar com os canavieiros e levar as reivindicações aos usineiros, entrando e saindo os portões da Usina, apresentando o que dizia cada lado e tentando mediar a negociação. A forma como se comportava perante os trabalhadores, deixou-os descontentes e passaram a gritar palavras de ordem e a criticá-lo, chamando-o de Sarney, magoando-o profundamente.
Tratando-se do MST, assessorávamos a formação e organização da coordenação, com cursos de formação e assessoria técnica e jurídica, visto que o Movimento estava se estruturando social e politicamente em coordenações locais, estaduais e em nível nacional.
Acompanhamos ocupações, acampamentos e conflitos no campo na região Norte-Novo e Noroeste do Paraná (ex.: Mandiocaba, em Paranavaí; Amaporã e Pontal do Tigre em Querência do Norte/PR). Acompanhamos as primeiras ocupações no Pontal do Paranapanema, Estado de São Paulo, realizando visitas, reuniões e assembléias junto às famílias acampadas (parte delas eram da região Noroeste do Paraná que se deslocaram para as ocupações no Pontal), tirando dúvidas e discutindo o Estatuto da Terra; a importância da Reforma Agrária; possibilidades de despejos, perseguições sociais e políticas do Estado e latifundiários; organização e estrutura dos acampamentos; funções internas e externas das coordenações, associativismo, entre outras.
Prestávamos assessoria jurídica, política e sindical às várias ocupações, despejos, prisões, liberdades condicionais, formação de lideranças e coordenações, nas diversas áreas (saúde, educação, política, cooperativismo, negociação, infraestrutura...), além de assentamentos, visando o trabalho coletivo e cooperativo dos assentados.
Na CPT/PR, participamos da organização das seis primeiras Romarias da Terra do Estado. Organizamos oposições e fundações de sindicatos dos trabalhadores rurais em vários municípios do Paraná (exemplo: Atalaia e Alto Paraná), acompanhando-os com assessoria jurídica e desenvolvendo formação social e política: cursos e encontros em Curitiba, Maringá, Londrina, Campo Mourão, Paranavaí, Francisco Beltrão, Guarapuava, Cascavel...
Assessorávamos as Dioceses de Umuarama, Paranavaí, Maringá e Campo Mourão na organização das pastorais rurais e da Juventude Rural. Entre as assessorias, destacamos os cursos de formação política, social e sindical de lideranças populares no campo e na cidade.
O engajamento social e político nos movimentos sociais e atividades pastorais, resultou na minha filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT), no ano de 1986, mesmo não sendo um "militante" consistente e um contribuinte exemplar (por não estar participando do Partido e tendo recebido e-mail do Partido, em agosto de 2009, solicitando informação se tinha intenção de continuar filiado, informei que, sou e continua sendo político, mas não tinha interesse e ficar filiado, pois priorizarei os movimentos sociais e não partidário). Sempre valorizei e investi nos trabalhos, contatos e assessoria aos movimentos sociais e sindicais - ações junto aos trabalhadores, às bases - do que a militância partidária. Procuro casar a teoria e a prática, enquanto a direção partidária valorizava as reuniões de cúpula partidária, a teoria, as discussões, os sonhos, a utopia, os "planejamentos", as negociações, os acordos... A valorização à formação política-social, resultou em questionamentos de parte da direção sobre meu trabalho político social e sindical em detrimento das atividades partidária.
O envolvimento social e político que tive nos trabalhos da CPT me custaram uma "forte" ameaça de morte em 1989, obrigando a mudar a rotina, descaracterizar-me e só sair, andar ou viajar acompanhado de duas ou três pessoas, em algumas situações com acompanhante armado. As ameaças jamais foram elucidadas pela polícia e o processo aberto na Delegacia de Polícia de Peabiru/PR, região de Campo Mourão, foi arquivado. A informação da ameaça de morte chegou por telefone da Executiva Estadual da CPT-Paraná, de Curitiba, que foi informada pela polícia e pela Diocese de Campo Mourão de que um membro da Pastoral da Juventude Rural de Campo Mourão, Maurício Fernandes Gutierres, havia sido torturado e estava gravemente ferido em um hospital em Peabiru. Ao retornar à consciência, o torturado pediu que os médicos e enfermeiros avisassem a Elias Brandão (Maringá), padre Francisco Prim (Campo Mourão) e Zilda (Nova Cantu/PR), que estavam correndo risco de morte. Os depoimentos do torturado indicaram haver policiais envolvidos na tentativa de morte e no risco que os demais corriam, pois usavam rádios transmissores utilizados pela polícia civil e militar. Maurício Gutierres atualmente é assentado no município de Quinta do Sol/PR. Apesar da possibilidade concreta da ameaça de morte, parecia-me menos dolorido do que as tentativas de uso de minha imagem e pessoa por parte de uma jornalista e de um membro da direção do partido que era filiado.
A jornalista disse-me após uma entrevista: "se você morrer, eu subirei na empresa com esta matéria". Educadamente - mas transtornado com a insinuação - respondi: "se depender de mim você não vai subir na vida. Poderei contribuir muito mais vivo do que morto. Morto, o que me resta é o velório e algumas manifestações públicas. Um ano depois poucos são aqueles que se lembrarão de mim. Não vou morrer. Vou me cuidar, não se anime com esta possibilidade".
Não foi diferente com um membro da direção do PT que disse: "vamos criar um fato político. Vamos à imprensa. É bom para o partido crescer".
Ambos interesses me machucaram. Foram decepções que até hoje carrego em relação ao uso da imagem pública a partir de riscos eminentes de morte, por assassinato. Somente quem viveu - mesmo com a sensação de que não parecia real - sabe o quanto foi difícil o momento, sobretudo porque colegas estavam sendo assassinados pelo Brasil adentro, a exemplo do padre Josimo e o seringueiro Chico Mendes.
Em 24 de fevereiro de 1990, casei com Maria Aparecida Cecílio, momento em que passamos a dividir os mesmos compromissos sociais, políticos, econômicos, culturais e civis, resultado de aproximadamente quatro anos de namoro.
Após sair da CPT, em agosto de 1990, continuei participando, assessorando e coordenando trabalhos junto aos movimentos sociais. Palestrando em cursos de formação social e política com temáticas sobre análise de conjuntura; história dos movimentos; educação de jovens e adultos; questão agrária e agrícola; importância da organização social e política, entre outras.
Fui presidente da Associação de Moradores do Parque Residencial Tuiuti, em Maringá/PR, entre 1990 e 1993. Em 1993, comecei a lecionar ensino religioso, história, filosofia e sociologia nos colégios particulares.
Considerando o não reconhecimento do curso de filosofia realizado no Seminário, iniciei o curso de História na Universidade Estadual de Maringá/PR (UEM), em 1993, concluindo-o, em 1996.
No mesmo ano em que iniciei o curso de História, lecionei história e artes no Colégio Paraná e a partir de 1994 passei a lecionar ensino religioso, história, filosofia e sociologia no Colégio Santa Cruz, ambos em Maringá. Entre 1994 e 1996, ao mesmo tempo em que lecionava no Colégio Santa Cruz, coordenei/supervisionei o Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário (PEART), da Associação Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário (APEART) – Educação de Jovens e Adultos (EJA), projeto inicialmente organizado pela CPT. O Projeto APEART desenvolveu trabalhos educativos nas regiões Norte, Noroeste e Centro do Paraná, atendendo a população de bóias-frias e trabalhadores rurais em geral, incluso a população indígena. Na região de Maringá, coordenei os trabalhos em mais de 20 municípios, acompanhando pedagogicamente aproximadamente 60 educadores (monitores).
Em 1998, tendo sido contemplado com bolsa de mestrado, me afastei das atividades do magistério para investir nos estudos do Mestrado em Educação na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) e no mesmo ano iniciei a participação na coordenação do “Projeto de Educação do Campo”, convênio entre governo federal – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Universidade Estadual de Maringá (UEM), investindo na educação dos trabalhadores dos assentamentos. O Projeto foi e é conhecido nacionalmente como Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). No decorrer do ano de 2000 afastai-me da coordenação para conclusão e defesa do Mestrado.
Em dezembro de 2000, conclui o mestrado na UNIMEP, tendo pesquisado a educação informal no MST. A dissertação teve como título: “Educação e consciência: o desenvolvimento da consciência sócio-político dos trabalhadores rurais assentados”, publicado posteriormente em livro com o título: “História social: da invasão do Brasil ao maxixe e lambari”.
O subtítulo "Maxixe e lambari" é devido pelo fato de ao visitarmos (eu e Devanir Rossini - atualmente residente em Minas Gerais) o acampamento da Fazenda do Grupo Atalla, no Pontal do Tigre, beira do Rio Paraná, em Querência do Norte/PR, encontramos as famílias - aproximadamente 300 - passando fome. Tinham apenas maxixe (fruto nascido à revelia pela fazenda) e peixe que pescavam nos rios e diques que cortava a fazenda. Cozidos com água e sal, se alimentavam. Era um sábado, por volta das 11 horas quando chegamos na área, salvo engano em fins de setembro, ápoca de seca. Vimos a situação e imediatamente visitamos os diferentes grupos procedentes de diferentes regiões do Estado do Paraná e constatamos situação igual ou pior. Pedimos que os grupos escolhessem três pessoas que iríamos a Umuarama/PR tentar alimentos. Como havia sido seminarista em Umuarama e conhecia vários padres, acreditei que teríamos êxitos. Chegamos na cidade por volta das 17 horas e contatei três padres de diferentes paróquias. Sensibilizados, passei deixando um sem-terra em cada igreja. Os padres abriram espaço no final da missa no sábado a noite e no domingo, para que se apresentassem e relatassem a situação que estavam passando na área ocupada. Entre o sábado e o domingo foi recolhido um caminhão de alimento não perecível, que foi levado na ocupação na terça-feira pelos sem-terra, acompanhado pelo padre Edvaldo, conhecido como Miranda.
A partir de janeiro de 2001, fui convidado a administrar a sub-prefeitura do distrito de Iguatemi (11 mil habitantes), Município de Maringá/PR e a coordenar o processo eleitoral nos distritos de Iguatemi e Floriano para eleição dos administradores políticos, o que ocorreu em abril de 2001.
Após o pleito eleitoral fui nomeado diretor e coordenar do Orçamento Participativo (OP) no Município de Maringá. Para conhecer melhor como funcionava o OP e de que forma poderia ser implantado em Maringá, fomos a Porto Alegre/RS conhecer o Orçamento Participativo: divisão, ações e formas de atendimento à população. Coordenei o projeto até abril de 2003 quando solicitei demissão da prefeitura para investir e concluir o doutorado em Sociologia na Universidade Estadual Paulista (UNESP-Araraquara/SP), que havia iniciado em 2002 e conclui em 2005, defendendo a tese intitulada “Limites, desafios e avanços da participação popular no Orçamento participativo”. Quando na coordenação do OP, participei também do Comitê Político Central do Município, tipo KGB.
Desde o ano de 1998 tenho participado de trabalhos voltados para os Direitos Humanos, a começar pelo Movimento de Direitos Humanos de Maringá; coordenação estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos, no Paraná (MNDH-PR), entre 2003 e 2007. De 2004 a 2008 integrei o conselheiro nacional do MNDH-Brasil, representando a Região Sul do Brasil. De 2005 até o presente momento faço parte do Conselho Estadual do "Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas" no Paraná (PROVITA/PR). No momento também fazemos parte da assessoria de formação do MNDH-PR; coordeno o Coletivo de Estudos e Educação em Direitos Humanos de Maringá (CEEDH) e fazemos parte do Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas e Gestão Educacional (GEPPGE), da UEM.
Lecionei Sociologia como professor colaborador na Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (FAFIPA), entre abril de 2005 a abril de 2007 e, no início de 2009 fui convocado para os exames médicos e, já aprovados pelo Estado, aguardo a nomeação pelo governador como professor adjunto de Sociologia daquela Instituição de ensino.
Entre 2006 e 2007, participei e fui aprovado em três concursos públicos: em 3º lugar em Sociologia e em 4º em Educação, ambos na FAFIPA e em 6º lugar em Educação na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS.
No Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas e Gestão Educacional (GEPPGE), na Universidade Estadual de Maringá/PR (UEM), desenvolvo pesquisa em “Políticas Públicas e Desenvolvimento Humano”, estudando “História das políticas educacionais em Direitos Humanos".
Contribuo também com a manutenção do blog do Movimento Nacional de Direitos Humanos no Paraná (MNDH-PR): http://mndhparana.blogspot.com/ e do Coletivo de Estudo e Educação em Direitos Humanos (CEEDH-Maringá): http://ceedhmaringa.blogspot.com/.
Administro também alguns blogs pessoais:
http://acaopolitica.blogspot.com/
http://educacaoeviolencia.blogspot.com/
http://www.elias-brandao.blogspot.com/
http://dicionariopopular.blogspot.com/
http://dnadaspalavras.blogspot.com/
http://porta-da-cidadania.blogspot.com/
Nos últimos anos tenho concedido entrevistas a rádios, TVs e jornais, podendo ser acompanhadas nos links a seguir:
a) Pesquisador CNPq – GEPPGE: http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhelinha.jsp?grupo=032970829JCMT3&seqlinha=4
b) Entrevista à CBN sobre os 59 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: http://www.cbnmaringa.com.br/?page=media_center&add=17539;
c) Entrevista à CBN sobre perseguição aos vereadores: http://www.cbnmaringa.com.br/?page=media_center&add=18937;
d) Entrevista ao jornal Comerciário: http://www.sincomar.com.br/sistema_sincomar/adm/arquivos_downloads/f2e1c0af83be.pdf;
e) Entrevista à TV Revista-RPC sobre o Dicionário Popular: http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=9zTpujr6OT4;
f) Artigo na Revista GeoNotas da UEM, sobre o Líder na formação da consciência: http://www.dge.uem.br/geonotas/vol3-2/lider.html;
g) Entrevista ao Jornal Matéria Prima: http://anexoseliasbrandao.blogspot.com/2008/08/relato-da-experincia-do-oramento.html;
h) Exposição sobre o Orçamento Participativo em Congresso Brasileiro: http://www.sbsociologia.com.br/sbs_v01/xicongresso/gt13ter_resumo2.html#elias;
i) Reportagem sobre prostituição no Jornal Matéria Prima: http://www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=7070&id_noticia=161
Artigos publicados em periódicos
* O líder na formação da consciência sócio-política dos assentados. Um educador social em movimento. Geonotas (UEM), v. 3, p. 1-10, 1999.
* Educação do Campo: Pedagogia da sobrevivência. Comunicações (Piracicaba), UNIMEP, v. 1, p. 205-213, 1998.
Livros publicados
* (Org.) . Orçamento Participativo: Avanços, limites e desafios. 1. ed. Maringá: Massoni, 2003. v. 1. 109 p.
* (Org.) . Direitos e Integridade Humana. 1. ed. Maringá: Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEM, 2002. v. 1. 198 p.
Livros organizados / editorados / diagramados
* (Org.) . Memórias de um vencedor. Autor: MARQUES, A. S. A. 1. ed. Maringá: Massoni, 2007. v. 1. 116 p. (OBSERVAÇÃO: Este livro foi escrito por um portador de deficiência, utilizando o nariz e parte do dedão)
* (Editoração, diagramação e revisão gráfica) . Lavrar & Brincar: o trabalho precoce e as conseqüências para o desenvolvimento humano. Autor: CECÍLIO, M. A. 1. ed. Maringá: Massone, 2004. v. 1. 234 p.
Capítulos de livros publicados
* Educação em Direitos Humanos: desafios à educação formal e não-formal. In: CARVALHO, Elma Júlia Gonçalves de; FAUSTINO, Rosângela Célia. (Org.). Educação e diversidade cultural. Maringá-PR: EDUEM, 2009.
* O Orçamento Participativo em Maringá. In: BRANDÃO, E.C. (Org.). Orçamento Participativo: avanços, limites e desafios. 1 ed. Maringá/PR: Massoni, 2003, v. I, p. 89-100.
* Direitos Humanos. In: BRANDÃO, E.C; CECÍLIO, M.A; BARROS, M. S. F. (Org.). Direitos e Integridade Humana. 1 ed. Maringá/PR: Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEM, 2002, v. I, p. 25-52.
* História social: as vozes que não estão no discurso oficial. In: VILLALOBOS, J.U.G; CECÍLIO, M.A.. (Org.). História Social. 1 ed. Maringá/PR: Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEM, 2000, v. I, p. 101-129.
Textos em jornais de notícias/revistas
* O Comerciário. O Comerciário, Maringá/PR, p. 01 - 05, 01 set. 2007 – sobre a abertura do comércio aos domingos.
* ANPR. ANPR, Maringá, 01 mar. 2007 – sobre o lançamento do livro “Memórias de um vencedor”, do portador de deficiência, Alex Sander Aparecido Marques.
Trabalhos completos publicados em anais de congressos
* Violência urbana e rural: a questão agrária no Brasil. In: I Seminário Internacional Direitos Humanos, Violência e Pobreza - A situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje, 2006, Rio de Janeiro. I Seminário Internacional Direitos Humanos, Violência e Pobreza - A situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje. Rio de Janeiro : Rede Sirius/UERJ, 2006.
* Políticas públicas e Direitos Humanos: Estado, Sociedade e limites das ações. In: I Seminário Internacional Direitos Humanos, violência e pobreza - a situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje, 2006, Rio de Janeiro. I Seminário Internacional Direitos Humanos, violência e pobreza - a situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje. Rio de Janeiro : Rede Sirius/UERJ, 2006. v. 1.
* Direitos Humanos: da vítima ou do bandido? Em discussão as leis de proteção dos direitos humanos e dois autos judiciais de apuração de violência contra idosos e portadores de deficiência. In: I Congresso Internacional de Educação e Desenvolvimento Humano, 2004, Maringá. I Congresso Internacional de Educação e Desenvolvimento Humano. Maringá, 2004. v. 1.
* Orçamento Participativo: A democratização do poder executivo do Município de Maringá. In: XXII Semana da Administração, 2002, Maringá. Semana da Administração, 2002.
* Educação e consciência sóciopolítica dos assentados do MST. In: O pedagogo e o III milênio - VI semana de Educação de Cianorte, 2000, Cianorte. O pedagogo e o III milênio - VI semana de Educação de Cianorte, 2000. v. 1.
* Educação e violência no campo: perspectivas de sobrevivência. In: 3º Simpósio Internacional - Processo civilizador: Educação, Hstória e Lazer, 1998, Piracicaba. 3º Simpósio Internacional - Processo civilizador: Educação, Hstória e Lazer. Piracicaba : UNIMEP, 1998. v. 1.
Resumos publicados em anais de congressos
* História social: da invasão do Brasil ao maxixe e lambari. In: V Simpósio em Filosofia e Ciência - Trabalho e Conhecimento: desafios e responsabilidades, 2003, Marília. V Simpósio em Filosofia e Ciência - Trabalho e Conhecimento: desafios e responsabilidades. Marília, 2003.
* A democracia participativa na escola: (in)disciplina e planejamento estratégico participativo. In: Congresso Brasileiro de Formação de Professores, 2003, Campo Largo. Congresso Brasileiro de Formação de Professores. Campo Largo : Alexandre Shigunov Neto, 2003. v. 1.
* Democracia e participação popular. In: II Semana de Pós-Graduação em Sociologia da UNESP-FCLAr, 2003, Araraquara - SP. Os Clássicos e sua Contínua-ação nas Ciências Sociais, 2003.
* Educação e Consciência: o desenvolvimento da consciência sóciopolítica dos trabalhadores assentados. In: Trinta anos de pós-graduação em educação: ensaios, dissertações e teses, 2002, Piracicaba/SP. Trinta anos de pós-graduação em educação: Ensaios, dissertações e teses. Araraquara/SP : UNIMEP, 2002. v. I. p. 225-225.
* Educação e Trabalho Infantil. In: I CONEd, 1998, Belo Horizonte/MG. Educação, Democracia e Qualidade Social: construindo um Plano Nacional de Educação, 1998. p. 44-44.
Apresentações de Trabalho em Congressos, Seminários ou Palestras
* As contribuições de Marx e Engels - Manifesto Comunista para a organização dos trabalhadores: Leituras críticas. 2007. (Apresentação de Trabalho/Congresso).
* Direitos Humanos - Organização e Movimento: Por que estamos aqui? Como nos organizamos?. 2007. (Palestra).
* Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos e Construção dos Direitos da Criança e do Adolescente. 2007. (Conferência).
* Concretizar Direitos Humanos de Criança e Adolescentes: Investimento Obrigatório. 2007. (Conferência).
* Violência Urbana e Rural: A Questão Agrária no Brasil. 2006. (Apresentação de Trabalho).
* Políticas Públicas e Direitos Humanos: Estado, Sociedade e limites das ações. 2006. (Apresentação de Trabalho/Congresso).
* O que é Orçamento Participativo. 2005. (Conferência).
* Democratização e responsabilidade dos poderes: Legislativos e Executivos nos novos tempos. 2005. (Palestra).
* Direitos Humanos da vítima ou do bandido. 2004. (Palestra).
* Direitos Humanos: da vítima ou do bandido? Em discussão as leis de proteção dos direitos humanos e dois autos judiciais de apuração de violência contra idosos e portadores de deficiência. 2004. (Apresentação de Trabalho/Congresso).
* História social: da invasão do Brasil ao Maxixe e lambari. 2003. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).
* A democracia participativa na escola: (in)disciplina e planejamento estratégico participativo. 2003. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).
* Democracia e participação popular. 2003. (Apresentação de Trabalho).
* Avanços, limites e desafios da participação popular no orçamento participativo. 2003. (Apresentação de Trabalho).
* Cidadania, violência e segurança pública. 2002. (Apresentação de Trabalho).
* Orçamento Participativo do Município de Maringá. 2002. (Apresentação de Trabalho).
* Da consciência social à consciência política. 2002. (Apresentação de Trabalho).
* História e consciência sócio-política dos assentados do MST. 2000. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).
* Educação e consciência sociopolítica dos assentados do MST. 2000. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).
* Educação do campo: pedagogia da sobrevivência. 1998. (Apresentação de Trabalho/Seminário).
* Educação e Violência no campo: perspectivas de sobrevivência. 1998. (Apresentação de Trabalho/Simpósio).
* Exposição de fotos: O trabalhador e a alfabetização. 1998.
* Educação e trabalho infantil - I CONED. 1996. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).
* PEART - Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário = 2 horas. 1995. (Palestra).
